Vale de Cambra, O Vale Encantado por Ferreira de Castro
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O dia começou no Edifício Municipal onde o grupo se reuniu e ouviu, para além da Vereadora Catarina Paiva, responsável pelo pelouro da educação e que acompanhou o grupo de manhã, os técnicos da Câmara Municipal, Célia Seabra e Artur Jorge
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Foi este o título que o Município de Vale de Cambra deu ao seu roteiro castriano, um desafio que o Centro de Estudos Ferreira de Castro lhe fez em 2015, para celebrar o centenário da vida literária do escritor, que aconteceu em 2016.
Ontem, no âmbito do Curso de Formação, que estou a frequentar, "As Terras de Cambra como Recurso Educativo - I", foi dia de fazer o roteiro.
Dividido em duas partes, conforme os documentos que estiveram na base da construção de cada um dos oito painéis informativos, foi um dia muito bem passado, entre colegas e ao mesmo tempo, com algumas informações que eu desconhecia ...
De manhã fomos ver quatro locais em que a obra que serviu de base à instalação dos painéis, foi o volume 3 do Guia de Portugal, editado em 1944, coordenado por Sant'Ana Dionísio.
De tarde e depois duma passagem pelo Parque Dr. Eduardo Coelho, onde há dois elementos que resultaram da celebração do centenário, a Escultura "A Selva" concebida pelo artista e professor , participante no Curso, Vítor Ferreira e o Bosque Ferreira de Castro, visitámos mais alguns lugares, que o escritor descreveu, num texto publicado postumamente, em dezembro de 1975, na publicação semestral da Junta Distrital de Aveiro, Aveiro e o seu Distrito, "Velha Macieira de Cambra. Sempre Jovem"
Primeira paragem
Miradouro das Baralhas
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tudo verde e azul”
“Cercado de montanhas de formas extravagantes,
não é fácil descortinar em Portugal outro mais grandioso e espetacular. Quase
não tem planos. A vista desce para a imensa cavidade onde refulgem o Caima e o
Vigues; erra entre os campos agricultados e, depois, encontra, lá longe, o
contraforte das serranias, onde branquejam dispersas aldeias, humildes casitas.
A terra é verde e o céu é azul; é tudo verde a azul com raras pintas brancas do
casaredo, que mais do que moradias dos homens parecem janelas da própria paisagem.
Ao crepúsculo, porém, o enorme vale sofre metamorfose, torna-se polícromo – e
as suas cores separam-se aqui, muito nítidas, e dissolvem-se e confundem-se
além, num encanto visual indescritível. Nas noites de luar, quando o grande
balão de oiro surge na lomba das montanhas, o vale enche-se de magia, dum
sortilégio que paira desde os píncaros longínquos às águas sussurrantes do
Caima.
O espetáculo imponente pode-se contemplar da
estrada, onde existe um miradoiro próprio.”
Segunda paragem
Pinheiro Manso
...”mundo da manteiga”
A estrada desce, depois faz algumas curvas e
entra em Pinheiro Manso, burgo mui asseado e muito branco, já com seus ares de
urbanismo e de modernidade. Estamos no mundo da manteiga, na região de
lacticínios mais importante de Portugal. O leite vem quase todo das serras,
como as águas que irrigam o vale, e, transformado aqui, corre o País inteiro.
Atravessa-se Coelhosa, com a sua capela, suas
residências silenciosas, mui diferentes das que existem nas outras aldeias da
região; cortam-se vários campos do vale, passa-se cerca da junção do Vigues e
do Caima, sítio pitoresco, Entre-Pontes chamado.
Terceira paragem
São Pedro de Castelões
...”
romântica, melancólica ”
Castelões. Velha freguesia, com algumas vetustas
moradias, o seu cemitério e a sua igreja (construção de 1899), postos em sítio
airoso, dão uma sugestão romântica, melancólica embora, a quem arriba. Mas não
é a ideia da morte que nos sai ao caminho e sim uma ideia de comunhão ilimitada
e eterna com a Natureza bela que nos cerca, com o sol que prateia as vinhas e
os pinhais, os jardins e as vertentes. Estamos já ao pé da serra de Castelões,
que se levanta por detrás da freguesia e fecha o majestoso Vale de Cambra.
Quarta paragem
Gestoso, Senhora da Saúde
…”no
pico da serra”
No
pico da serra, a 763 m de alt., ergue-se a Senhora da Saúde, ermida até há
pouco, recentemente templo maior, acompanhado por um albergue. Para a festa que
em sua honra se celebra todos os anos, começam a passar aqui, na madrugada de
14 de Agosto, verdadeiras multidões. Vem gente da beira-mar, a muitas léguas de
lonjura, vem gente de todos os concelhos próximos, das montanhas vizinhas e das
montanhas distantes – e até das bandas do Porto e de Coimbra. Desde as regiões
vareiras às regiões de Arouca, não há estrada nem sinuoso atalho onde neste dia
não se projete a sombra dos romeiros a caminho da Senhora da Saúde. (...)A
maioria vai a pé nu – que a festa nasceu humilde como a ermida primitiva e é,
sobretudo, para gente de pé descalço. Lá vão elas com os pés grandes sobre o pó
dos caminhos, a saia nova a bater-lhes na barriga das pernas; nas orelhas as
arrecadas e, sobre a cabeça, um cesto com o farnel. Ao lado, vão eles. Como
ganham mais dinheiro do que elas, compraram sapatos para este dia; levam
cavaquinhos, harmónicas, violas e, desde madrugada alta, começam a cantar por
todos os caminhos. Chegados à ermida, não entram, pois já a viram da primeira
vez que ali vieram e a festa é mais pagã do que outra coisa. O píncaro está
cheio de bandeirolas, de vendedores de quinquilharias coloridas, de frutos estivais,
de chitas das mulheres; não há maior cromatismo em parte alguma, nem bulício
maior. Eles e elas pousam o farnel debaixo de velho carvalho, na vizinhança dum
carro de bois com uma pipa de vinho em cima, e logo desatam a bailar, não
acompanhando a música da filarmónica de Cambra e sim a dos milhares de
instrumentos populares que os romeiros levam. Bailam, cantam, suam e comem
durante o dia inteiro. À noitinha, as chitas das raparigas, depois do sol e do
suor, desbotaram levemente; mas eles e elas compram plumas tingidas e
estampadas polícromas da santa; colocam-nas no peito e no chapéu e, assim
adornados, iniciam a descida da serra, sempre a cantar e a bailar, enquanto
outros, dispondo de maiores ócios, ficam, durante a noite, a fazer a mesma
coisa no arraial. E cantando aqui, parando ali para o bailarico, cobrem léguas
e léguas, até que a voz do oceano, lá para as praias de Ovar, se sobreponha à
voz deles e delas ou o silêncio das montanhas arouquesas lhes lembre que
chegaram a casa – às preocupações da vida, ao árduo trabalho pelo pão de cada
dia (…).
Parque da cidade
Escultura "A Selva"
Quinta paragem
Macieira de Cambra, Praça da República
...”a
primeira gentileza aos olhos”
Quem de automóvel ou camioneta se detenha, um
dia, na velha praça de Macieira de Cambra e por ela avalie da linda terra da
saúde, tecerá errado juízo. Macieira de Cambra é como essas vetustas mansões de
fachada medíocre, que possuem um parque esplendoroso nas traseiras. Um parque
sem portão heráldico, um deslumbrante álbum de paisagens sem frontispício.
É preciso irradiar da antiga praça, é preciso
deambular por estradas e caminhos, para se surpreender a inefável beleza, ora
discreta, ora imponente, desta sortílega região. É preciso irradiar da antiga
praça, é preciso deambular por estradas e caminhos, para se surpreender a
inefável beleza, ora discreta, ora imponente, desta sortílega região.
O adro oferece a primeira gentileza aos olhos.
Lombas e vales, colinas e regaços abrem-se perante nós, tudo verde e azul de
manhã, todas as cores do arco-íris às horas crepusculares.
Sexta paragem
Macieira de Cambra, Praceta Anna Horvath
O
jardim Anna Horvath, exibe orgulhosamente o seu busto, da autoria do mestre
António Duarte, como forma de perpetuar a memória do Escritor, do Romancista
mas sobretudo do Homem que acolhemos como sendo nosso e nós dele numa certeza
eternizada na vaidade que sentimos nas palavras que escreveu sobre a terra onde
é tudo verde e azul.
Sétima paragem
Rôge
[logicamente é a oitava]
...”obra lírica da Natureza “
Em ROGE, à obra lírica da Natureza ligam-se as
obras de arte do Homem – o cruzeiro garboso e célebre, a igreja de fachada
esculturada, num adro que é outro terraço sobre o romântico Vale do Caima.
O rio murmura perto dali. E seja nas suas
margens, seja nas dos ribeiros seus afluentes, relvados e edénicos recantos se
abrem ao nosso passo sob as frondes de amieiros e de outras árvores que se
foram avizinhando da água, para no seu espelho azul se mirarem garridamente. O
rio murmura, o rio canta também uma canção suavíssima, que parece vir da noite
de todos os séculos para as auroras de todos os dias.
Oitava paragem
Macieira de Cambra, Cruz de São Domingos
[logicamente é a sétima]
...”Varanda
do Céu”
Depois, é a estrada de Rôge. A princípio, entre
pequenas, modestas quintas, logo entre pinheiros e carvalhos, por fim ladeando,
a meio da encosta, o vale do Caima. O vale é o troféu da estrada, sinuoso com
as suas caprichosas saliências e seus desvãos, seus verdes pendores, suas
brancas casitas dispersas, seus soberbos contrafortes montanhosos, os olhos
deslumbrados jamais se fatigam de vaguear do todo para os pormenores, para os
milhentos pormenores de beleza com que o seu colo acidentado nos brinda. E se
porventura uma esfarrapada névoa veio de longe, do mar vareiro, pairar ali, tem-se
a ilusão – inesquecível ilusão! – de que o vale do Caima é um dos fantásticos
palácios onde a Quimera dá recepções.
A estrada de onde se abrange a maravilha, nada
tem, em si própria, de extraordinário, nada das estradas famosas. E, contudo,
quando um dia sentirmos aproximar-se a nossa morte, esta velha estrada há-de
incluir-se entre aquelas outras que nos darão pena, muita pena, de não podermos
voltar a trilhá-las. Ela possui um encanto geórgico, uma doçura campestre
inexprimível, que se mantém sempre, sempre, através das sucessivas paisagens
que nos vai revelando.
Aqui, antes de descer para RÔGE, ela forma como
que uma sacada sobre o vale. Mas já não é o vale que ela parece querer
ofertar-nos e sim o próprio mundo sideral. E por isso, numa noite constelada, a
crismamos de «Varanda do Céu». Dir-se-á que podemos falar com as estrelas, que
podemos, se estendermos os braços, colher a mãos cheias as joias celestes,
estes frutos de luz e de oiro que estão longe e são tão grandes e parecem estar
pertinho e serem pequeninos.
[Os textos usados nesta publicação, constam da brochura disponibilizada aos participantes na Visita de Estudo e do flyer concebido para divulgar o percurso]